Cozinhar é um ato de amor. Esta frase tornou-se muito comum, não é mesmo? Não é à-toa que até mesmo alguns produtos buscam se identificar com isso, usá-los será como colocar "amor" na comida.Mas se cozinhar é um ato de amor, que dimensões esse amor pode tomar? Quais as maneiras pelas quais pode se expressar?
Não se pode negar que cozinhar traz consigo manifestações de cuidado, de carinho, sentimentos que vão além da junção de simples ingredientes em sua quantidade exata, acrescida de temperos, em suas pitadas precisas. Também pode se somar os sentimentos de preservação da vida, algo maternal mesmo. Mas hoje não quero falar desse tipo de amor. Convido você a fazer uma leitura mais “apimentada" do ato de cozinhar. Experimenta, vem comigo!
Quando sentimos fome, não surge o desejo de comer? (algo, claro!) Mas esse desejo não vem só. Logo nos vemos num devaneio que se transforma em fantasia, ao imaginarmos qual o prato mais apetitoso, que prato é suficientemente gostoso para saciar a fome que nos assola. Então, seduzidos pelos sabores imaginados, colocamos mãos-a-obra.
Num ato preliminar escolhemos os ingredientes que necessitamos começar a realizar objeto de nosso desejo.
Desnudamos a dispensa e/ou a geladeira, para buscarmos os ingredientes. Frutas, legumes, verduras, tudo recebe docemente a suavidade de nossas carícias pelos toques delicados sob a água que cai.
Nesse encontro começamos a dar ao nosso objeto de desejo, o carinho que fica estampado no cuidado com cada produto, na beleza e viço dos mesmos, no frescor, na imaginação do sabor que o outro sentirá em seus lábios e claro, como na beleza do prato a ser servido.
O desejo, digo a fome, aumenta e traz consigo uma excitação maior. O preparar o prato vai tomando uma dimensão mais profunda, o envolvimento, a química que se forma ali faz com que haja um toque, por que não dizer, mais erótico.
Nesse momento não ligamos pra mãos sujas de farinha, ovos mexidos com a mão desnuda, os cheiros se misturam, os condimentos são colocados, pois nos sentimos cada vez mais famintos, mais excitados pra comer.
A excitação é tanta que a boca fica cada mais úmida pela saliva e nossos olhos já não se voltam pra mais nada em redor. Nada mais nos desvia de querer, a todo custo, aquilo que nos desperta os sentimentos mais primitivos e instigantes, a comida.
Paramos um momento pra tomar fôlego. É hora de observar o prato, delicadamente e com muita sensibilidade começar sua "montagem", admirar cada grão, folha ou fruto ali presente, nos consumir nos detalhes e na sedução do aroma. E então, numa ânsia louca, num frenesi incontido, saltamos sobre ele dominando e sendo dominados pelo seu sabor, não deixando escapar nada, nenhum pedaço, nenhuma porção. Mastigando, mordendo, triturando, envolvendo em saliva, fazendo da comida parte de nós, dentro de nós, úmida, morna.
E comemos até nos saciarmos, atingindo o êxtase, o gozo de haver saciado a fome. Olhamos o prato (ou será a cama?) e vemos o nada, vemos o vazio daquilo que antes era fantasia e que agora nos sacia, nos penetra e nos nutre. Alivia-se o desejo.
Ainda assim, sobra tempo/espaço pra alguns "beijinhos" de sobremesa, doces, suaves, achocolatados, nos untando a boca e fazendo perpetuar o prazer.
Saímos da mesa e repousamos sobre um sofá qualquer, uma cadeira, uma rede qualquer. Vem o sono, vem a preguiça. E o prazer se perpetua mais uma vez e prova que cozinhar é mais que qualquer coisa, um ato de amor.

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